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Câmara aprova emenda que torna mais precisa definição de misoginia

Proposta de Alice Portugal protege a liberdade religiosa, mas estabelece limites diante da violência e da discriminação contra mulheres

por Natália Padalko

Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara aprovou nesta quarta-feira (12) a emenda apresentada pela deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) e outros parlamentares ao PL 896/2023, que trata dos crimes praticados em razão de misoginia. A proposta reage às alterações articuladas na Comissão de Segurança Pública e busca preservar o sentido original do projeto antes da votação em plenário.

A mudança tira a misoginia do campo de uma definição abstrata e a vincula a condutas concretas. Pelo texto, será considerado ato de misoginia a prática que, em razão da condição de mulher, promova discriminação, segregação, restrição de direitos ou incitação à violência, incluindo as formas física, psicológica e simbólica.

A mudança parte de uma crítica à redação aprovada pelo Senado, que define misoginia como a conduta que exteriorize “ódio ou aversão às mulheres”. Para Alice e os demais parlamentares que assinam a emenda, colocar um sentimento subjetivo no centro da definição pode dificultar a comprovação do crime e abrir questionamentos sobre a tipicidade penal. A nova redação desloca o foco para aquilo que pode ser identificado concretamente: a conduta e a violência que ela produz.

Não é uma diferença meramente jurídica. A justificativa apresentada por Alice parte de uma violência que começa muito antes do feminicídio. Em 2025, foram registrados 1.568 feminicídios no país, o maior número da década. Para a deputada, essas mortes não podem ser dissociadas de uma cultura de desumanização alimentada também pelos discursos que circulam nas redes.

É nesse terreno que aparece a chamada “machosfera”, que a emenda associa à disseminação de conteúdos em que mulheres são apresentadas como inimigas, objetos ou propriedade. A justificativa chama atenção ainda para influenciadores que transformam esse ódio em produto e monetizam discursos que ajudam a naturalizar a violência.

“A violência contra a mulher não começa na agressão física, mas na piada, no comentário, no discurso que desumaniza”, afirma Alice. Para ela, criminalizar a misoginia significa interromper essa cadeia antes que ela chegue ao desfecho letal.

É por isso que a emenda não trata misoginia como sinônimo de opinião desagradável ou divergência. O que passa a ser delimitado no texto é a conduta que discrimina mulheres, restringe seus direitos ou estimula a violência contra elas. A proposta inclui ainda as dimensões psicológica e simbólica da violência, justamente para não reduzir o problema à agressão física já consumada.

Liberdade religiosa sem escudo para a misoginia

A emenda também enfrenta um dos argumentos utilizados nas negociações para dificultar o avanço do projeto: a suposta ameaça à liberdade religiosa. Em vez de deixar essa garantia fora do texto, Alice propõe explicitá-la. O exercício da liberdade de expressão, de manifestação do pensamento e de convicções religiosa, filosófica, científica, acadêmica ou política permanece protegido, mas não afasta a responsabilização quando a manifestação resultar em violência ou discriminação contra mulheres.

“Essa emenda busca deixar explícita a proteção à liberdade religiosa, de modo que o enfrentamento da misoginia não seja interpretado como autorização para censurar ou punir manifestações de natureza religiosa feitas dentro dos limites constitucionais”, explicou Alice. “A ideia é fazer uma ressalva entre discurso misógino e manifestação de fé religiosa.”

A ressalva não abre uma exceção para a violência. O texto protege a manifestação religiosa, mas não transforma a fé em salvo-conduto para práticas que discriminem mulheres, restrinjam seus direitos ou estimulem agressões contra elas. A própria justificativa da emenda estabelece esse limite ao tratar da liberdade de expressão como um direito fundamental que não pode ser usado para encobrir crimes.

“Não se pode invocar o direito de falar para legitimar o direito de violentar ou matar”, afirma Alice. A formulação resume o que a emenda pretende estabelecer: a Constituição protege o direito de professar uma crença, mas nenhuma garantia fundamental pode ser transformada em autorização para violar a dignidade de outras pessoas.

A discussão não surgiu por acaso. A bancada evangélica vinha cobrando uma definição mais precisa para o crime de misoginia nas negociações sobre o projeto. Ao mesmo tempo, alterações aprovadas na Comissão de Segurança Pública provocaram reação entre os parlamentares que defendem a proposta, que passaram a atuar para impedir que o texto perca força antes de chegar ao plenário.

É contra esse movimento de esvaziamento que a Comissão de Direitos Humanos se posiciona. A emenda apresentada por Alice foi assinada por um grupo de parlamentares de diferentes partidos da esquerda, entre eles Erika HiltonJandira FeghaliNatália BonavidesTalíria PetronePastor Henrique VieiraCélia Xakriabá, Orlando SilvaErika Kokay e Luiza Erundina.

O PL 896/2023 já recebeu urgência na Câmara e está pronto para ser levado ao plenário. A disputa agora é justamente sobre o conteúdo que chegará à votação. Enquanto setores conservadores pressionam por mudanças, organizações do movimento de mulheres percorrem os gabinetes e cobram que o Congresso avance na criminalização da misoginia.

O discurso que prepara a violência

A emenda também incorpora ao debate a violência que se alimenta da misoginia nas redes sociais. Alice Portugal chama atenção para o crescimento da chamada “machosfera”, que alicia adolescentes com discursos de suposto empoderamento masculino enquanto apresenta mulheres como inimigas, objetos ou propriedade. A justificativa também aponta a atuação de influenciadores que monetizam esse ódio e relaciona a expansão desses discursos à naturalização da violência. “A misoginia não é opinião nem brincadeira, é o combustível de uma cultura que ceifa vidas todos os dias”, afirma a deputada.

É também por isso que a emenda inclui as formas física, psicológica e simbólica da violência na definição do ato de misoginia. A proposta procura alcançar não apenas o momento em que a violência já explodiu, mas as práticas que alimentam a discriminação, restringem direitos e ajudam a construir um ambiente em que a violência contra mulheres pode ser naturalizada.

Agora, a disputa é no plenário

A aprovação da emenda na Comissão de Direitos Humanos não encerra a batalha. O PL 896/2023 ainda precisa ser votado pelo plenário da Câmara, e as negociações seguem justamente porque setores conservadores tentam alterar o alcance da proposta.

O movimento de mulheres, por sua vez, mantém a pressão para que o projeto avance. A União Brasileira de Mulheres (UBM) tem percorrido os gabinetes dos parlamentares e cobrado a votação de uma legislação capaz de enfrentar a misoginia como uma forma de violência que não pode ser naturalizada até que chegue ao feminicídio.

A emenda aprovada por Alice Portugal oferece uma resposta política e jurídica à disputa. Não recua no enfrentamento à misoginia, não transforma liberdade religiosa em alvo e não permite que a liberdade religiosa seja transformada em escudo para a violência.

A lógica é simples: uma mulher não perde seus direitos porque seu agressor invoca uma crença. Uma manifestação de fé não se torna crime porque existe uma lei contra a misoginia. Mas nenhuma crença, opinião ou discurso pode ser usada para legitimar a discriminação, a retirada de direitos ou a violência contra mulheres.

É esse limite que Alice Portugal e os parlamentares que assinam a emenda querem levar ao plenário. No texto apresentado pela deputada, o objetivo está expresso sem rodeios: desmontar a engrenagem que transforma ódio em violência e violência em morte.

Fonte: Portal Vermelho

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